Vicky - Um conto que nada conta





Vicky era uma mulher com pouco mais de 30 anos.

Em uma madrugada insone, ela lembrava das suas expectativas para esta fase da vida que se fazia presente agora...

O tempo é mesmo uma grande charada! Na juventude, tudo parece demorar muito para acontecer e quando ficamos adultos, o que mais exclamamos é: 

- Minha nossa, o dia já está acabando e eu ainda tenho tanto por fazer! 

O tal do tempo, sempre nos falta... talvez por culpa do relógio, que impõe seu ritmo  para nós ao invés do contrário, o que seria bem mais natural...

A única coisa que Vicky sabia, era que seu tempo havia se esgotado. Isso lhe causava  grande angustia e talvez fosse o motivo pelo qual vagava entre os cômodos da casa vazia, solitária, com sua xícara de chá e um cigarro que se queimava praticamente sozinho, em meio a noite fria.

Nada era como o planejado outrora. Nessa fase da vida, ela já se imaginava casada, com filhos, em uma bela casa decorada por bibelôs trazidos das diversas viagens feitas ao redor do mundo... ao invés disso, era solteira, não tinha filhos e não conhecia nada além da sua cidade natal. 

A vida se mostrava muito limitada, e Vicky acreditava que essa limitação era resultado da sua incapacidade de viver um grande amor.

- Porque amar - dizia ela - ensina  a se entregar mesmo diante dos riscos. Ensina a conter o frio na barriga decorrente da queda de um eterno abismo... ensina a viver sem chão, mesmo sob um teto seguro.

As lágrimas brotavam e Vicky tentava entender porque não conseguia se entregar à experiência de viver um grande amor. Ao recordar seus casos, desde a juventude, percebia que suas expectativas acabavam sempre com o mesmo fim, a frustração.

Quando começava um namorico, ela logo imaginava que este seria o homem da sua vida. Transformava o sapo em príncipe e com ele escrevia sua história até o fim dos dias, até o corpo virar pó.

Neste mundo ideal, nada faltava, tudo era abundante... o amor, o dinheiro, a saúde, a tranquilidade, a felicidade, a fidelidade... mas rapidamente, o sonho se desfazia em lágrimas e sempre pelo mesmo motivo... Vicky descobria a traição e tudo estava acabado.

Decepção, seguida de mais decepção... e sem muita demora, seu coração se fechou em um vazio cheio de dor, que lhe trazia a sensação da seca, como o solo do nordeste. Fértil e seco. Tudo que lhe faltava era um pouco de água para florescer, mas por alguma razão do destino, no seu céu só havia sol.

Vicky não era uma mulher bonita, mas também não era feia. Sua beleza era uma incógnita e precisava de tempo para ser compreendida e apreciada. Ninguém que a visse uma única vez, se encantaria. Também não era gorda, mas muito menos magra. Seus olhos eram da cor do mel e seu cabelo ondulado e escuro contrastava com sua pele clara. Boca levemente delineada, fina e bem pequena. As maças do rosto rosadas, facilmente se enrubreciam. Era tímida e seu olhar dificilmente mirava o horizonte. Costumava contar seus passos toda vez que saía de casa, e assim, se distraía dos olhares perversos das vizinhas fofoqueiras que passavam o dia na janela comentando a vida alheia.

Filha de um casal já em vias de se aposentar, ela era o resultado do que vulgarmente se chama de 'raspa do tacho'. Perdeu seu pai qdo ainda era criança. Sua mãe resistiu bravamente a todos os infortúnios que a velhice pode trazer, e depois de muito sofrer em cima de uma cama com o câncer lhe comendo as entranhas, finalmente se encontrou com Nossa Senhora Aparecida e no reino do céu fez a sua morada.

Vicky era adolescente, recém completos 18 anos, quando se viu só no mundo. Muito religiosa, conforme a educação que recebera, frequentava a igreja todos os domingos e respeitava a quaresma, mesmo tendo verdadeira paixão por carne vermelha.

Como boa cristã, conservava a virgindade como uma espécie de prêmio à sua dignidade. Mas isso lhe custava um mal estar frequente, pois  era acometida por ondas de calor que lhe arrepiavam desde o fio de cabelo até as pontas dos pés, em cada noite de lua cheia, por todos os meses do ano, ano após ano.

Tornou-se costureira, ofício que aprendeu com sua mãe. Era hábil e dedicada. Tinha bom gosto e boas idéias, o que lhe rendia uma freguesia fiel e frequente. Mas não era dada a muita conversa, o que alimentava ainda mais a curiosidade das mentes ociosas da pequena cidade onde morava.

Vicky estava cansada. Sentia sobre os ombros o peso de uma vida sem sal nem açucar, insonsa, sem graça. Sentia-se velha e seu futuro era só o declínio. Não era capaz de confiar em ninguém com mais de 5 anos de idade, exceto o padre da sua paróquia, pois ele sim, era um homem digno. Talvez, o único que conhecera, pois as lembranças de seu pai eram muito vagas para poder estabelecer qualquer parâmetro.

E nesta madrugada, repassando em sua mente o filme triste de sua vida, se perguntava por qual motivo deveria continuar sob o sol incessante que lhe secava a alma. Não entendia em que curva se perdeu de si mesma. Quando foi exatamente que se fechou completamente para o inusitado. Em que momento desistiu de ser feliz. Mas fato é, que havia desistido. Se julgava culpada pela vida que levava. E merecedora de todo o sofrimento que pudesse suportar. Assim, selava seu destino.

Por indicação de uma cliente, havia lido a tragédia de Romeu e Julieta e não podia parar de pensar na coragem da moça em dar fim a sua própria vida com um punhal. Mas sabia que esta não seria uma boa opção para ela, pois era covarde demais para usar um punhal.

Transtornada com os primeiros raios de sol, começou a vasculhar os armários da cozinha em busca do veneno para rato que havia comprado a algumas semanas atrás e por fim, acabou com seu tormento ali mesmo, interrompendo a seiva e tornando-se seca de uma vez por todas.

Porém, antes de morrer, deixou escrito em um papel com letra quase ilegível, a citação que deveria constar em sua lápide: Aqui jaz uma vítima dos contos de fada. Uma moça capaz de transformar qualquer príncipe, em sapo.

2 comentários:

  1. Vicky tem cores de Betty Blue
    Nuances de Madalena
    Perfume de Amélie
    Gosta de segredos de liquidificador
    Incondicional no amor
    Ingrid em Casablanca
    Meio Noviça Voadora, meio Veludo Azul
    Vicky chama vinho tinto seco de veneno de rato
    E voa, e ralha, e encanta, e vive, e destoa, e rima
    Desconexa, complexa, inteira, em caco
    Coerente num minuto, fuso horário no próximo instante
    Coração gigante, alma que diz
    Corpo que fala, passos de aprendiz
    Coloca mensagens em garrafas
    escritas a giz
    Mas corre aqui, corre acolá
    E ela só quer é ser feliz

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  2. Ah... eu já fui um sapo dela
    Hoje voltei pra lagoa
    E sei que essa menina
    Quando não corre, voa
    Tem um’alma tão linda
    Que encanta minha pessoa
    Entendo cada sorriso
    E quando fica irada eu também entendo
    Pois sei que no próximo momento
    Seu sorriso pela vida ecoa

    Vicky nasceu para todos os mundos
    Precisa correr e ver e amar
    Incondicionalmente o que faz
    Têm olhares de “ques” profundos
    Mistura de guerra e de paz
    Adora os mares todos navegar
    Aprendi a amá-la assim
    Deixá-la soltar a voar
    Deixá-la encontrar o que até não procura
    Deixá-la liberta para voltar
    Assim se ela não for meu remédio
    Quem sabe será a minha cura

    Ah... eu já fui um sapo dela
    E tenho a lembrança no coração
    Como um conto de fadas
    Que vira em noite alta um clarão

    Quero sempre sua felicidade
    Pois sei que ela quer muitos quereres e cores
    E vendo-a voar intensamente
    Entendo que a vida é uma soma de amores

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